Perplexa

Como não fazer: revista Glamour

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Abri a Glamour de agosto que comprei no fim do mês. Na capa, Izabel Goulart, modelo de sucesso, magra, alta e absolutamente dentro dos padrões de beleza. Tinha meses que não comprava essa revista – nem nenhuma outra – pois percebi que não faz sentido comprar revistas que me faz sentir feia, pobre e não-cool, dentre outras coisas depreciativas. Ah, e também fracassada.

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De qualquer forma, namorei a revista na banca na sexta e vinha de brinde um esmalte. Estava com a carteira cheia (UI) pq acabei de receber meu salário e decidir gastar 10 dilmas (agora temers) nela.

Cheguei a página 30, já perplexa.

Como disse a capa tem a Izabel Goulart. Não sou especialmente fã nem nada. Nenhuma das chamadas me chamou a atenção. Comprei a revista apenas para um dolce far niente. Para passar o tempo pensando em abobrinhas. Mas decidi escrever.

Nas primeiras páginas tem publicidades.

A primeira é uma foto da Adriana Lima (nem havia reconhecido, apenas agora vi o nome escrito no cantinho) fazendo publicidade da caríssima Le Lis Blanc, loja que entrei apenas uma vez em uma promoção, pois pelo naipe sempre saquei que não era para o meu bolso. Nem pro meu estilo na verdade, mas isso não vem ao caso.

Virando a página tem a foto de uma modelo branca e magra como todas. Não sei se é a Gigi Hadid. Depois tem foto do Adam Levine. Ambos na publicidade da John John. Se não estou enganada tem uma loja desta marca no shopping. Nunca entrei pois não parece praticar preços acessíveis para mim – e para a maior parte da população.

Viro a página mais uma vez. Agora uma propaganda da Carmen Steffens. Outro dia vi a vitrine dela no Shopping Vitória mas nem reparei direito. Não acredito que torraria dilmas ali, salvo em uma promoção das quentes.

Na sequência, como em absolutamente todas as revistas que vejo tem uma publicidade com a divisíssima Gisele (Bundchen – mas nem precisava explicar). Olhei a foto, tem outrxs modelxs junto mas ela roubou a cena e não me dignei a reparar os demais. Apenas pensei “a bixa é mesmo bonita e poderosa”. A propaganda é da Colcci. Loja com roupas bacanosas e da qual seria cliente se tivesse rios de dinheiro e sobrando.

Até aqui, nada que possa me servir. Salvo em caso de saldão ou esforço financeiro provavelmente desnecessário. Mas tudo bem, se tem quem pague, né?

Ainda não vi nenhuma gorda, nenhuma negra. Ninguém para além do “óbvio ululante” das revistas femininas.

Prosseguindo, tem uma coluna em que a Glamour comemora 1 milhão de seguidores mostrando algumas celebridades com uma camiseta escrito “glamour” e um desenho de um milho. Apenas pensei “Que merda” e “Sei lá”. Tipo “???”, “Qual a relevância?”.

Depois tem um editorial da Diretora de redação Monica Salgado: linda, rica, magra e branca. Apenas o óbvio.

Mais propagandas: produtos de beleza, maquiagem e roupas. Lembrei de uma frase que vi hoje de manhã que dizia mais ou menos assim: “Quantas empresas faliriam se amanhã as mulheres acordassem amando seus corpos?”. Várias. Inúmeras. Essa revista seria uma das diretamente prejudicadas, já que, de certa forma, vive da insatisfação e faz publicidade de produtos para a aparência.

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Na sequência 4 páginas de fotos que, pelo que entendi, são looks fora da caixinha para usar no dia-a-dia mas que eu nunca vi ninguém se atrevendo a sair na rua assim. Mais uma vez fico “???”.

Na página 27 temos o título “TOP 5 indispensáveis” (não estou brincando) em que o produto mais barato – uma sandália – custa 99 reais e o mais caro – uma calça feia – custa R$ 910. Não tá fácil mas sigo no meu dolce far niente. Pensando em COMO uma revista desta faz sucesso e alcança, por exemplo, 1 milhão de seguidores no Instagram.

No centro tem uma foto da Juliana Paes Leme usando itens que variam 189 (um body) a 1060 (uma sandália).

Qual o percentual deste 1 milhão tem condições de comprar, por exemplo, o item de valor intermediário que veste a atriz (um top, de 533$)?

Não sei qual a tiragem da revista impressa, mas também fico matutando aqui qual a finalidade de exibir um top neste valor. Não deve ser pra convencer alguém a comprar, – até porque mal dá pra ver o tal top com a foto que escolheram – deve ser muito mais para causar insatisfação e, consequentemente, consumo.

Cheguei às paginas 28/29 e têm fotos de 8 moças. Todas brancas e magras. E de cabelo liso, acabei de reparar. Deve ter algo errado. E olha que eu sou branca e magra e de cabelo liso e mesmo assim não me sinto representada.

Precisamente na página 29 tem uma pulseira de resina de R$ 298. Será que eles digitaram errado? Eu não compraria jamais uma pulseira deste estilo por questão de gosto, mas se fosse pra avaliar, diria que vale umas 10 dilmas (Temers, terei que me acostumar).

No cantinho algo que sempre achei ridículo, isso desde que tinha uns 12 anos e assinava Capricho. Aquelas matérias de moda de “sobe”, “desce”, “em alta”, “em baixa”. Lembro que na Capricho era algo como “o que usar” e “o que não usar” e sempre achei grotesca essa obsessão por querer ditar o look do coleguinha. Cada um usa o que lhe cai bem e foda-se.

Bom voltando a análise da revista que tenho em mãos: no cantinho tem o que eles chamam de “Glamourômetro” (é serio). Consta que estampas tropicais estão EM ALTA. Na foto uma modelo usando um look que eu tenho certeza que NENHUMA das minhas amigas usaria. Mas o que me incomoda mesmo é o EM BAIXA.

Segundo a revista “padronagens ético-tribais” estão EM BAIXA pois foram “overdose no inverno”. Então, você, que gastou seu suado dinheirinho com uma roupa do seu gosto (quiçá influenciado por uma revista como essa que não duvido disse outrora que era indispensável tal padronagem) deve deixar seu look enfiado no armário pois já aconteceu uma OVERDOSE no inverno…(!?!?!?!!?!??!?!)

Cheguei a página 30 que foi a derradeira que me fez escrever esse post. Nela fala de “Superioga” capaz de queimar até 800 calorias em uma aula; de um tratamento que “consegue eliminar até 40% das células de gordura de áreas mais difíceis” (!!!!!!!!); de moda fitness: apresentando uma regata por 180$ e um shortinho de 150 (no qual eu não pagaria nunca nem 50 reais)

Por fim tem uma provável propaganda não sinalizada indicando hambúrguer vegano.

A revista tem um total de 146 páginas e na 30ª eu já estou desacreditada na mídia e na vida. E arrasada com tudo que não posso comprar, claro.

Enfim, eu estou completamente “???”. Sabe me faltam até argumentos para criticar ao perceber como as matérias apresentadas são tão esdruxulas e sem finalidade social nenhuma.

Não li, em 30 páginas, nada informativo; nada que me fizesse sentir bem, bonita e bem-vestida; nada que me fizesse sentir paz; nenhum produto que eu tenha vontade e condições de comprar.

Neste momento estou apenas estarrecida ao perceber que É ISSO QUE A GENTE CONSOME há anos e sem perceber, ou pelo menos no meu caso. Fazendo essa análise escrita, sem as firulas e fotinhas lindas que a revista tem, vemos que estamos apenas sendo enganadas, diminuídas, desvalorizadas. A função única é vender coisas que não precisamos, muitas vezes que nem queremos para sustentar um estilo de vida inviável e surreal.

[ Eu  iria encerrar aqui, MAS…]

Achei que fosse ponto final mas continuei lendo a revista e não resistir a continuar a “avaliação”.

Vamos juntxs então.

Uma publicidade da Cia. Marítima com uma modelo. Adivinhem como ela é? Acertaram. Branca, magra, cabelos claros, olhos claros, nariz fino, sobrancelha grossa.

A seguir, na página intitulada Glamurices temos fotos de Thássia Naves, Lu Tranchesi, Helena Bordon, Camila Coelho, Grazi Massafera…. ZZZZZZzzzZzzzZZZz…as mesmíssimas de sempre que vemos por ai sendo exaltadas como belas, bem vestidas, bem nascidas e bem educadas. Nada contra nenhuma delas, mas será que não tem como inovar? Particularmente não aguento mais ver as mesmas caras em todas as publicações online e off-line de fofoca, moda, diversão, lifestyle, etc. Pelamor… Isso sim é “overdose”.

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CALMA CALMA CALMA. Que na mesma tag ainda tem Lalá Rudge, Marina Ruy Barbosa e Juliana Paes. Caramba, quando eu achei que não tinha como ficar mais absurdo eles apresentam ainda mais do mesmo…Pois é, como dizem: “quem tem limite é município”, né? Pq não colocar as mesmas moças em absolutamente todas as revistas e posts? Isso que eu chamo de enfiar guela abaixo.

Página 37: Publi da Morena Rosa com a Grazi Massafera, acho. É tanto tratamento, tanta make que fico até em dúvida, sinceramente. Ela parece ser naturalmente linda, pra que isso?

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UFAAAAAAA. ATÉ QUE ENFIM UMA BANDEIRA QUE CARREGO. A revista diz no cantinho da página 43 que não é OK dar spoiler. GOOOOOLLL. Finalmente. Cara, spoiler não tem condições. Spoiler de livros, de filmes, de series, pqp. É de cair o cú das calças e dar gelo no filhx de chocadeira que faz isso. Acho que é politicamente incorreto usar a expressão FDP então cunhei essa nova.

Págs. 44/51: Sejamos justas, gostei da entrevista com a Izabel, pena que é micro. Na verdade de entrevista são apenas 3 páginas, as demais são fotos da entrevistada posando. Ela conta que na infância mal tinha o que calçar e chegou a vender coxinha para ter o que comer no dia seguinte. Me emocionei. Ando emotiva.

Depois, tem uma matéria intitulada “Mapa das Minas” em que nas próprias palavras da revista “o dream team das páginas a seguir vai te ajudar a desbravar cidades do Brasil como um local. Boa viagem!”. Temos 9 meninas (provavelmente) ricas, brancas e bonitas dando diquinhas de amigue. A primeira moça dá indicação de uma marca com a qual tem parceria.  A segunda indica as bijus que ela mesma faz (e vende, claro). A quarta tb indica a própria marca (de roupas). A sexta moça indica a marca da amiga. A oitava indica a marca de joias da mãe.  A nona indica as “próprias criações”. Não pode ser sério isso né, gente? Essa publicidade reportagem me deu vergonha alheia. Como que uma revista se presta a pedir dicas a pessoas quem indicam as próprias marcas…e publica mesmo assim!!!!!!!!????!!!

A matéria seguinte chama “Você é produtiva ou ocupada?” dentro do assunto “carreira”. Foi a segunda matéria da revista que achei bacana. Sim, já adianto que na revista toda só gostei da entrevista com a Izabel Goulart (mesmo com a opinião de ficou mt pequena e podia ser mais extensa) e essa matéria. E adivinhem? Pô, um tema bom desse e eles me escrevem…. duas páginas…poxa, as leitoras mereciam mais.

A “tag” seguinte conta uma história real sobre uma atleta que ficou fora das Olimpíadas. Não me interessei em ler.

Depois tem uma tag chamada “geração glamour” em que 11 personalidade respondem “Que brasilidade você mais ama?”. 10 páginas para isso. Não estou brincando. Uma foto grande de cada um respondendo à pergunta. As respostas…insossas ZzzzZzzZ. “Sou vidrado em surf […]”; “Amo a comida brasileira […]”, “minha delícia típica favorita é…banana […]”…….. Sem comentários para a falta de criatividade.

Depois um montão de páginas com “fotos de modelo”

A seguir mais um besteirol todo que tô até com preguiça de narrar.

Antes de terminar, acho digno falar da página 134, “Destination Wedding”, indicando “destinos nacionais mais hot do mundo casamenteiro”. Se você for noiva, milionária e quiser torrar uma fortuna na sua festa de casamento agora é hora de se inspirar!!!!! Meu pensamento: “Pra que?”.

A revista vai até a página 146, mas chega né gente? Folheiei tudo e não cheguei a ler metade.

Concluindo: era melhor ter comprado revistinha da turma da Mônica.

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!!!

 

 

2 comentários em “Como não fazer: revista Glamour

  1. Você tem um senso crítico apurado! Parabéns, Gabi! Não são todas as pessoas que conseguem perceber certas sutilezas do nosso mundo. Algumas coisas discordo, outras, concordo plenamente, mas o que mais me instigou é que sua opinião tem uma lógica e você faz uma análise bastante agressiva da imposição de valores. Sempre achei que algumas dessas revistas são impraticáveis para o estilo de vida dos brasileiros. Nos leva a uma reflexão merecida para os dias atuais.

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